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Fena, escama, mamadeiras: presos por tráfico internacional de cocaína adotaram dicionário próprio para despistar investigadores, diz PF

Vocabulário descoberto pela Polícia Federal aparecia em anotações e conversas dos suspeitos. Cinco pessoas estão presas e outras três ainda são procurada...

Fena, escama, mamadeiras: presos por tráfico internacional de cocaína adotaram dicionário próprio para despistar investigadores, diz PF
Fena, escama, mamadeiras: presos por tráfico internacional de cocaína adotaram dicionário próprio para despistar investigadores, diz PF (Foto: Reprodução)

Vocabulário descoberto pela Polícia Federal aparecia em anotações e conversas dos suspeitos. Cinco pessoas estão presas e outras três ainda são procuradas. Porções de cocaína embaladas por investigados Polícia Federal/Divulgação A quadrilha alvo de uma operação da Polícia Federal contra o tráfico internacional de cocaína adotou um dicionário próprio para despistar os investigadores. Termos como 'fena', 'escama' e 'mamadeiras' eram usados para se referir a substâncias e itens utilizados na produção e tráfico da droga. Confira lista abaixo. De acordo com os investigadores, o grupo atuava de forma sofisticada, usando garrafas térmicas para despachar cocaína para países da Europa e Dubai, sem serem notados por fiscais aduaneiros. A quadrilha também abria registros como Microempreendedores Individuais (MEI) para lavar o dinheiro do tráfico e esconder a origem ilícita dos lucros. 📲 Participe do canal do g1 Campinas no WhatsApp O vocabulário descoberto pela PF aparecia em anotações em papel ou em conversas dos integrantes, como explica o delegado Edson Geraldo de Souza. "Apesar do distanciamento deles, todos entendiam a linguagem cifrada. Todas as pessoas que participavam dos grupos de conversa entendiam o que estavam dizendo". Para falar da droga em si, eram pelo menos quatro termos, como 'escama', 'café', 'peixe' e 'peruana'. Veja a relação de termos usados pelos investigados e descobertos pela Polícia Federal: Azeite: droga específica Barricas de café: pacotes de droga Caf: cafeína (usada na diluição de cocaína) Café: cocaína Escama: cocaína Exportação: cocaína com alto grau de pureza Fena: fentanil Lid: lidocaína Lojinha/Biqueira: estabelecimento voltado ao comércio de drogas Maleta: dinheiro Mamadeiras: cocaína embalada para transporte Mistura: insumos para aumentar o volume da cocaína (Cafeína, Tetracaína, Lidocaína e Adrenalina) Peixe: cocaína Peruana: cocaína com baixo grau de pureza Tet: tetracaína (anestésico usado na diluição de cocaína) Tirar do estacionamento: retirada do depósito para entrega A operação White Coffee foi realizada na manhã desta quarta-feira (2). Ao todo, foram cumpridos cinco mandados de prisão preventiva, sendo dois deles contra investigados que estão presos desde o ano passado. Três pessoas continuam foragidas. Todos foram expedidos pela 9ª Vara da Justiça Federal. Abaixo, veja detalhes de como o grupo agia e o que deu início às investigações. Do recebimento da cocaína ao envio em garrafa térmica De acordo com a Polícia Federal, ao menos 11 pessoas participavam do esquema em várias etapas. Entre elas estão: o recebimento de cocaína da Colômbia e da Bolívia; a manipulação em laboratório, onde eram produzidas as substâncias, com opções de alto grau de pureza ou de menor qualidade, diluídas em fentanil e cafeína; o embalo e preparo das remessas; o envio para compradores no exterior. "Percebemos uma relação muito íntima de alguns com o exterior para recebimento da cocaína e outros com a logística, conhecimento, da destinação das mercadorias. Havia uma organização interna no país, uma organização externa, tanto de fontes, quanto dos destinatários e o disfarce da mercadoria", explica o delegado. O envio da droga era feito por meio de remessas expressas. O grupo usava uma empresa de fachada para fazer a postagem e a encomenda era encaminhada por meio de companhias de logística que realizam esse tipo de trabalho regularmente ao redor do mundo. Para que a droga não fosse identificada por fiscais aduaneiros, os investigados "disfarçam em garrafas térmicas, mas também chegaram a disfarçar com roupas de criança, sapatinhos, qualquer mercadoria que poderia disfarçar o peso ou a leitura da encomenda postal", completa Edson. Em 2024, durante um período de três meses, a Polícia Federal identificou ao menos 16 envios para países como: Portugal Inglaterra Alemanha Dinamarca Dubai Esquema foi descoberto após prisão de líder Polícia Federal realiza operação contra tráfico internacional de drogas em Campinas Em setembro de 2024 a Polícia Militar descobriu um laboratório clandestino de drogas na Avenida Francisco Glicério, em Campinas. Na ocasião, um homem foi preso após admitir que enviaria cerca de um quilo de cocaína para a Itália em garrafas térmicas. Além dele, os agentes também prenderam o auxiliar logístico da quadrilha. Os dois estão em prisão preventiva desde então. "Isso [a prisão do líder], talvez, tenha desfalcado o funcionamento deles a partir daquele flagrante. Isso nos permitiu, a partir do dispositivo eletrônico dele e da situação que ele tinha conhecer a organização criminosa", comenta o delegado. No local, os policiais apreenderam anotações sobre o esquema de tráfico internacional em folhas do papel. Com esse material e por meio da análise de dados telefônicos, financeiros e bancários, a Polícia Federal descobriu a existência de um grupo sofisticado voltado à preparação, embalagem e envio das drogas. Ainda de acordo com o delegado, outro ponto que chama atenção é a organização financeira, além dos cadastros como MEIs, que disfarçavam a origem do lucro obtido com o tráfico, eles também "usavam PIX em diversas pessoas para diluir e calculavam exatamente quanto de cada coisa viria a produzir o lucro específico que eles esperavam". LEIA TAMBÉM: Rota de tráfico de drogas, Viracopos enfrenta desafios na segurança diante do crescimento Preparo em laboratório e dicionário interno A cocaína enviada tinha dois formatos: uma de alto grau de pureza e outra com menor qualidade, que era diluída em substâncias como fentanil e cafeína. O fentanil é uma droga sintética que se tornou o principal medicamento responsável pelas mortes por overdose de opioides nos EUA. O delegado detalha que o laboratório descoberto no ano passado armazenava diversos insumos para a diluição da cocaína, como o fentanil. O objetivo do grupo, segundo ele, era criar porções de menor valor. "Você diminui a cocaína, a pureza da cocaína, mistura com cafeína e, as vezes, fentanil. A ideia é que aquele produto parece poderoso, para causar o efeito, mas que, na verdade, ele seja barato". A organização criminosa também é caracterizada pelo uso de uma linguagem própria, que usava códigos para se referir às substâncias. A cocaína com baixo grau de pureza era chamada de 'peruana', enquanto a mais pura recebia o apelido de 'exportação'. Para substituir o nome do entorpecentes, também eram usadas as palavras 'peixe' e 'café'. Parte da produção do laboratório, principalmente a menos pura, era comercializada regionalmente. "Eles tinham esse laboratório, trabalhavam com a cocaína, mas nós encontramos ali diversas outras drogas, muitos insumos e, inclusive, maconha. Maconha não é uma droga que se destina ao mercado internacional, é mercado nacional, pelo preço não compensaria a exportação". "Normalmente, o comprador final, principalmente o europeu, tende a procurar a cocaína de alta pureza. O fato deles manusearem aqui também demonstra uma característica dos compradores lá, eram pessoas que queriam a droga pronta para fins de distribuição". Crimes investigados Os crimes sob apuração são: tráfico internacional de drogas; associação para o tráfico; lavagem de dinheiro. Somadas, as penas chegam a 40 anos, segundo a PF. Além dos mandados de prisões e buscas, foi decretado o bloqueio de bens e valores que vierem a ser encontrados. A operação leva o nome de White Coffee (do inglês, café branco), em referência ao termo 'café', que era usado pelos investigados para se referirem à cocaína. Cocaína em garrafa térmica e MEI para lavar dinheiro: como agia quadrilha alvo da PF que traficava para Europa e Dubai Polícia Federal/Divulgação VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e Região p Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Campinas.

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