Existem basicamente duas demandas no ministério pastoral: a congregação e a vocação.

Elas são fontes de alegria e realização ou dor e frustração, e, às vezes, as duas ao mesmo tempo.

É o que eu chamaria de paradoxo eclesiástico.

Por uma questão de tempo e foco deixaremos de fora a família, sem, contudo, ignorar sua grande e essencial importância na vida do pastor.

A congregação diz respeito às pessoas que devemos pastorear; enquanto a vocação fala do pastor, seu chamado, vida espiritual e cuidado pessoal.

A congregação – o mito da igreja perfeita“Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós” (1 Pedro 5.

2a)Para Eugene Peterson “qualquer pessoa que idealize a congregação presta um desserviço aos pastores.

Ouvimos história de igrejas entusiásticas e cheias de charme e nos perguntamos o que estamos fazendo de errado, pois nossa congregação não tem nada a ver com isso como resultado de nossa pregação.

Contudo, se examinarmos de perto, não existe uma congregação perfeita.

Permaneça em um templo por algum tempo e você descobrirá fofocas intermináveis, equipamentos que não funcionam, discípulos que desistiram, corais que desafinam – e coisas piores.

Toda congregação é uma congregação de pecadores.

Se isso não fosse ruim o bastante, todas elas têm pecadores como pastores”.

[1]Não existe igreja perfeita, pelo simples fato de que não somos perfeitos.

Nossos ouvintesHá, nos bancos de nossas igrejas, ouvintes de vários tipos: os distraídos; os que esperam novidades mirabolantes; os que buscam alívio mágico para suas dores; os que querem sentir; os que precisam saber e aqueles que têm fome e sede de Deus.

Por isso, o desafio do apóstolo Paulo ao jovem pastor Timóteo continua o mesmo “Que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina.

Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; E desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (2 Timóteo 4.

2-4).

Em nossas igrejas também encontramos muitos que no fundo, bem lá no fundo, estão atrás de ídolos, não de ouro ou prata e sim ídolos do coração.

Que substituam o Deus vivo pelo deus do consumo, da realização, da satisfação.

Para o pastor Peterson elas:“Entram em nossas igrejas com a mesma mentalidade que vão ao shopping, para comprar algo que satisfaça um apetite ou desejo (…) e veem o pastor como o responsável pelo controle de qualidade da fábrica”.

Eugene continua dizendo: “As pessoas que se reúnem em nossas congregações querem ajuda numa hora de dificuldade; querem um sentido e significado para as empreitadas da vida.

Elas querem Deus, de certa forma, mas não certamente um ‘Deus zeloso’ (…).

Em geral, querem ser seus próprios deuses e ter o controle, mas precisam de ídolos assistentes para as horas difíceis, e é o pastor que lhes mostra como fazer isso”.

[2] Toda essa rotina, dinâmica e exigências da igreja provocam gemido de dor em nossa alma pastoral.

Nosso trabalho como pastor é tirar os ídolos dos corações e não arrancar as pessoas da congregação como ervas daninhas.

Pois a congregação não é nossa inimiga, e sim a fonte e meio pelo qual Cristo nos faz crescer.

Nosso trabalho é tirar os falsos deuses e colocar no lugar o único e verdadeiro Deus, o Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Esse é o grandioso trabalho do pastor.

“Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho.

E, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa da glória” (1 Pedro 5.

2-4).

A vocaçãoA vocação está revelada na pergunta do Senhor Jesus a Pedro: “amas-me mais do que estes?”.

E a congregação está revelada na ordem do Senhor Jesus a Pedro: “apascenta as minhas ovelhas”.

A congregação diz respeito às pessoas que devemos cuidar, ensinar, discipular, pastorear; enquanto a vocação fala do obreiro, pastor, envolvendo seu chamado e sua vida espiritual.

O grande perigo no exercício do pastorado é confundirmos a nossa vontade com a vontade de Deus.

  Em seu livro: A vocação espiritual do pastor, Eugene Peterson diz que “É nesse contexto de sermos responsáveis, obedientes, que substituímos a vontade de Deus pela nossa vontade, porque é muito fácil achar que elas são idênticas.

É quando tentamos ser pastores bons que temos a maior chance de desenvolver o húbris pastoral – orgulho, arrogância e insensibilidade”.

[3] O orgulho também conhecido como síndrome de Lúcifer, pode vir enrustido em nossa dedicação ao trabalho de Deus, mas não com Deus.

O que nos tornará em profissionais da religião e não mais pastores que velam pelas almas.

Se deixarmos o veneno da arrogância circular em nossas veias ministeriais, nos tornaremos manipuladores de pessoas e gerentes de uma empresa religiosa.

Seremos qualquer coisa menos pastores a serem imitados e seguidos como encontramos em“Lembrai-vos dos vossos pastores, que vos falaram a palavra de Deus, a fé dos quais imitai, atentando para a sua maneira de viver” (Hebreus 13.

17).

                                                                                                    A nossa luta contra a profissionalização da fé é vivermos nossa vocação:através da graça de Deus, “E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza; de boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo” (2 Coríntios 12.

9); através do amor, beleza e santidade do ministério pastoral (Hebreus 13.

20-21);através da pregação da salvação, para o pastor Eugene, salvação é: “o desejo de Deus que toda criatura experimente o amor libertador, não é uma abstração casual e fria; é uma energia selvagem e extravagante, incapaz de ser reduzida ao controle humano, e atrelada a um emprego religioso.

”[4];através das práticas espirituais – oração e estudo da Palavra, tendo como modelo o mestre e sumo pastor Jesus Cristo, Senhor da Igreja.

Me permita ilustrar essa questão da vocação com a história de Chaim Potok, escritor judeu, descrita no livro do pastor Peterson: “ele queria ser escritor desde pequeno, mas, quando foi para a faculdade, sua mãe se aproximou dele e disse: “Chaim, eu sei que você quer ser escritor, mas eu tenho uma ideia melhor.

Por que não ser um neurocirurgião? Você impedirá a morte de muitas pessoas; ganhará muito dinheiro”.

Chaim respondeu: “Não, mãe.

Eu quero ser escritor”.

Ele voltou para casa nas férias, e sua mãe falou-lhe novamente.

“Chaim, eu sei que você quer ser escritor, mas ouça sua mãe.

Seja um neurocirurgião.

Você impedirá a morte de muitas pessoas; ganhará muito dinheiro.

” Chaim respondeu: “Não, mãe.

Eu quero ser escritor.

”O diálogo foi repetido em todas as férias, todos os feriados, todos os reencontros: “Chaim, eu sei que você quer ser escritor, mas ouça sua mãe.

Seja um neurocirurgião.

Você impedirá a morte de muitas pessoas; ganhará muito dinheiro”.

Todas as vezes, Chaim respondia: “Não, mãe.

Eu quero ser escritor”.

Com o tempo, o clima ficou tenso, a pressão se acumulou.

Finalmente aconteceu a explosão.

“Chaim, você está perdendo seu tempo.

Seja neurocirurgião.

Você impedirá a morte de muitas pessoas; ganhará muito dinheiro.

”Esta explosão levou a outra explosão: “Mãe, eu não quero impedir que as pessoas morram; quero mostrar-lhes como viver!””[5]O cuidado pastoralO que nos faz gemer muitas vezes, como pastores, são os nossos pecados.

“Eis que a mão do Senhor não está encolhida, para que não possa salvar; nem agravado o seu ouvido, para não poder ouvir.

  Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça (Isaías 59.

1-2).

Essa é a dura realidade, pecamos porque somos pecadores.

Não se esqueça, não somos super heróis, somos pó.

No máximo, vasos de barro nas mãos do oleiro.

O profeta ainda clama: “Ai de mim! …sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios…” (Isaías 6.

5).

O cuidado pessoal do pastor está revelado nas palavras de Paulo à Timóteo “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina.

Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” (1 Timóteo 4.

16).

Ainda acrescentaria a sábia recomendação de Charles H.

Spurgeon: “Tenha mais cuidado com você mesmo do que com os outros”.

Não podemos nos enganar, “carregamos nossos maiores inimigos dentro de nós mesmos” (Bruce Wilkinson).

A Bíblia diz em 2 Coríntios 7.

11 “Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus”.

Como ministros de Cristo, não devemos esquecer o peso da responsabilidade e da glória que está sobre os nossos ombros.

[1] PETERSON, Eugene.

A Vocação Espiritual do Pastor.

Editora Mundo Cristão, 4ª impressão, São Paulo, 2009.

p.

27.

[2] Idem.

p.

81.

[3] Idem.

p.

38.

[4] Idem.

p.

69.

[5] Idem.

p.

51-52.